Entrevista | Pablo Casado

Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto artista visual e quadrinista.

Pablo Casado: Cresci como leitor de quadrinhos, principalmente de super-heróis. Quando eu comprei meu primeiro gibi do Homem-Aranha, disse para mim que trabalharia com aquilo. Naquela época eu queria ser desenhista. Foi apenas aos 17, 18 anos que comecei a escrever. Comecei com prosa, obviamente, e quando tive oportunidade de fazer parceria com algum ilustrador, os primeiros roteiros começaram a aparecer. Sou autodidata: descobri o caminho das pedras lendo entrevistas ou depoimentos dos roteiristas sobre seus processos criativos. Mesmo com internet na época, ainda não tínhamos roteiros disponíveis à distância de uma rápida pesquisa no Google. Meu grande guia foi o Como Fazer Roteiros do Warren Ellis, que ele publicou em sua finada coluna no site Comic Book Resources e que o Hector Lima traduziu e jogou na rede na época.

 

Monotipia: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas,você identifica no seu trabalho?

Pablo Casado: Os roteiristas que me fizeram descobrir a minha “voz” foram Grant Morrison e Warren Ellis. O Ellis tem um papel mais marcante, e a cada novo quadrinho eu sinto que estou mais distante dele; não falo como se isso fosse um problema, mas com orgulho, porque sinto que aprendi o suficiente com o sujeito para trilhar meu próprio caminho.

 

Monotipia: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais?

Pablo Casado: Eu dificilmente escrevo a mão hoje em dia. Basta um editor de textos para que o trabalho aconteça.

 

Monotipia: Conte sobre a dinâmica de produção das seus trabalhos.

Pablo Casado: Desde 2013 eu uso o editor de textos do Google Drive como ambiente de trabalho. Fica bem mais fácil compartilhar os roteiros com os desenhistas, bem como incluir as referências necessárias, além de centralizar todo o processo. E como eu não vivo de quadrinhos e tenho um trabalho que paga as contas, produzo nos meus intervalos. Não é um processo glamouroso, admito. É sentar e escrever ou então sentar e contemplar o nada pensando na história.

 

Monotipia: Quais costumam ser suas preocupações narrativas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em seus trabalhos?

Pablo Casado: Eu me preocupo em ter uma história ou um roteiro que se adeque ao desenhista. Eu dificilmente começo o roteiro propriamente dito sem ter um desenhista na jogada, porque eu gosto de entender o que ele gosta e do que é capaz. Ciente disso, tento aliar com o meu estilo. Narrativamente, depende da história. O ritmo em Sabor Brasilis é completamente diferente de Mayara & Annabelle, por exemplo. No geral, meu objetivo é balancear trama e personagens para que a história soe uniforme.

Monotipia: Fale Mayara & Annabelle (e outros trabalhos recentes para o Fictícia).

Pablo Casado: Mayara & Annabelle apareceu quando o Talles (Rodrigues, do Pânico no José Walter) e eu discutíamos o que fazer depois d’O Clube dos Monstros dos Bairros Distantes, nossa primeira colaboração, que contou com o Matheus Sant’Anna nos roteiros comigo. Ele me apresentou rascunhos e anotações de umas personagens que havia criado e pras quais não estava conseguindo desenvolver uma história. O material que ele apresentou já tinha conteúdo suficiente para pelo menos um álbum, e eu topei de cara porque achei o conceito fantástico e cheio de potencial. Inicialmente a ideia era fazer um álbum fechado que desses pistas para uma continuação. Mas ainda quando estávamos bolando o argumento decidimos que seria algo escancaradamente seriado, porque as ideias estavam tomando proporções cada vez maiores.

Além de M&A, estou finalmente dando continuidade à Soul Ink, HQ com arte do Felipe Cunha (Sabor Brasilis) e cores da Camila Torrano (A Travessia). É um drama criminal futurista sobre um tatuador que volta para casa depois de uma tragédia pessoal. É um trabalho que vem sendo produzido há dois anos e que agora vai entrar na reta final. Lançamento para 2016.

 

Monotipia: Conte-nos sobre seus trabalhos autorais.

Pablo Casado: Meus quadrinhos refletem meus gostos e, principalmente, uma necessidade por contar histórias. A ideia da Sabor Brasilis surgiu depois que eu passei dias pensando sobre um tema brasileiro que ainda não tinha sido abordado a exaustão na produção nacional. O germe de Soul Ink apareceu quando eu estava assistindo um reality show americano sobre tatuadores. Eu não estou necessariamente em busca do zeitgeist, e sim das histórias que passam por mim e eu digo “ei, eu posso tentar transformar isso em ficção”.

 

Monotipia: O que você tem produzido para além deles?

Pablo Casado: Eu também escrevo e produzo curtas pela Muamba Cultural, um selo audiovisual daqui de Maceió que criei com um amigo diretor. Já temos dois curtas e estamos na pré do terceiro que, se tudo der certo, deve sair este ano.

 

Monotipia: Por que quadrinhos?

Pablo Casado: Porque sem os quadrinhos eu não consigo funcionar 100% como ser humano.

 

Monotipia: O que  você tem lido ultimamente?

Pablo Casado: Eu tenho lido algumas séries da Image, os mangás do Naoki Urasawa que saem no Brasil e, sempre que vou a uma convenção, tento me manter atualizado com a produção nacional.

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