Entrevista | Hugo Canuto

Monotipia: Fale sobre sua formação, enquanto artista visual e quadrinista.

Hugo Canuto: Minha formação oficial, digamos assim, é na arquitetura, pela Universidade Federal da Bahia. Ali aprendi muito do que depois levei para o trabalho de artista visual… mas foram nos quadrinhos e no cinema que formei meu repertório, principalmente pelo traço de Jack Kirby, Walt Simonson e os Europeus, Moebius e Toppi… foram minha escola em uma geração pré-internet, precisava ir nos sebos cavar esses clássicos. Naquela época, anos 90, os quadrinhos estavam na fase “Image” e aquilo era terrível… então, graças a um amigo mais velho, Marcos Queiróz, que me emprestava gibis da EBAL, RGE com fases incríveis dos personagens, eu tive acesso a muita coisa boa.

A experiência de morar fora do país também foi importante, ver o mundo, ir a museus, as pessoas… isso vai abrindo a cabeça para criar, absorvendo referências, imagens, texturas e pessoas. Pessoas são histórias.

Sempre fui autodidata, Salvador não tinha e ainda hoje não tem uma escola de artes, uma academia que passe noções estéticas e profissionais… então fui para São Paulo, para a Quanta Academia de Artes estudar, primeiro em Férias, depois, em 2015, morei um ano em São Paulo para mergulhar na formação, porque apesar da internet e todo o acesso atual, a experiência passada por um professor ainda é fundamental.

 

Monotipia: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas, você identifica no seu trabalho?

Hugo Canuto: Quando estudei História da Arte, percebi que muito do que gostava vinha de uma tradição anterior, de linguagens experimentadas em outras artes e que foram levadas para o cinema, os quadrinhos… os pré-rafaelitas, os simbolistas, William Blake, a mistura entre texto, narrativa e desenho, o mergulho em temas mitológicos, sempre fizeram parte do meu imaginário, segui por essa trilha desde então.

Nos quadrinhos, as maiores influências foram os europeus, como Moebius, Toppi, Bourgeon, e durante muito tempo os americanos da Marvel-DC, como Walt Simonson, John Byrne, George Perez, Mike Mignola e John Buscema… nunca gostei do estilo Image, achava aquilo grosseiro, ainda acho, e o gênero de Super-Heróis, que já não leio tem muito tempo, perdeu muito da força criativa do passado.

Acredito que na formação artística existam algumas fases; primeiro as referências estéticas, a busca pelo estilo, técnica, criatividade… depois, na busca pela profissionalização, referências éticas, experiências… nesse aspecto tive bons “mestres”, como o Octavio Cariello, professor da Quanta, o Flávio Luiz Nogueira, autor do Cabra, AU, entre outros que sempre deram apoio, dividiram seus conhecimentos. Ninguém anda sozinho.

 

Monotipia: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais?

Hugo Canuto: Tento trabalhar minhas páginas, principalmente na Canção de Mayrube, dentro do método tradicional, ou seja, papel, aquarela e nanquim… acredito que uma história tem que envolver o leitor e suspender sua descrença, e a atmosfera é fundamental para isso. No caso de um épico mitológico como a Canção de Mayrube, as texturas, ambientes, cores, são índices importantes para isso.

Minha base são os italianos e franceses, é muito mais difícil e demorado, porém de um prazer enorme trabalhar com as mãos… porque não pretendo maquiar os defeitos e imperfeições do processo artístico, gosto das camadas sobrepostas, lápis, tinta, arte final… meu traço não é limpo.

Monotipia: Conte sobre a dinâmica de produção das seus trabalhos.

Hugo Canuto: Sempre fui apaixonado por mitologia, desde criança buscava livros sobre deuses Gregos, depois Nórdicos, celtas… todo esse arcabouço cultural que paira sobre nós ainda hoje, vivo, pulsando em salas de cinema, televisão e nas religiões me atrai, por ser uma maneira fantástica de compreender o mundo e nosso papel dentro dele.

Assim, a vontade de contar uma saga própria crescia, mas queria algo que dialogasse com nossa cultura, com os elementos e a paisagem locais. Apesar de amar Tolkien e sua criação, não conseguia compreender autores nacionais escrevendo sobre elfos e anões em reinos medievais enquanto um continente imaginário adormecia esperando para ser trazido a vida, de florestas e cidades douradas, oceanos verdes, deuses selvagens e trovões… aquilo mexia comigo e ainda mexe.

Em 2007, já esboçava o começo da Canção, mas ainda entre brumas… foi aí que tive a experiência de viajar para a terra dos Kiriris, como conto na introdução da revista A Canção de Mayrube, e descobrir que meu avô materno nasceu lá, alguém que foi uma referência de aventuras e histórias em um sertão antigo, tudo aquilo foi acendendo a luz do que seria Mayrube. Mas queria ir além daquela cultura, mergulhar nas civilizações que formaram a América Latina, seus mitos, histórias… esse fio condutor foi alimentando todo o trabalho de pesquisa, que me levou, por exemplo, a morar na Espanha e ter acesso aos monumentos e tesouros dos Incas, Astecas; lembro que uma vez fui a uma exposição sobre Teotihuacán em Madri, e passar quase 10 horas desenhando nos cadernos cada item que via, tentando traduzir para o universo de Mayrube, criando personagens a partir das esculturas… a medida em que lia, descobria sua cultura, hábitos, faunas, mergulhando no tema, em livros de antropologia, de arte, a própria visão pré-estabelecida que trazia sobre os primeiros povos da américa se transformou… logo vieram as civilizações Basco-Ibéricas de ricas tradições pagãs, e a herança dos povos da África, sua estética. Fui costurando os elementos e assim surgiu o universo Mayrube, das mil páginas de anotações e artes que aos poucos transformo em histórias.

 

RM: Quais costumam ser suas preocupações narrativas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em seus trabalhos?

Hugo Canuto: Seja uma HQ ou livro, a narrativa deve ser tratada com cuidado. Não se pode ter pressa em contar, o autor precisa se permitir construir aos poucos os elementos da trama, subtrair a “gordura” da história, dos diálogos… esse é o maior desafio, até porque boa parte de nossa tradição literária vem de bacharéis, doutores, gente que achava de alguma maneira que escrever em excesso, com muitas palavras, com termos difíceis era bom… e se esqueciam de contar uma boa história apenas, algo simples… no caso dos quadrinhos, o diálogo deve dividir o protagonismo com as imagens, ou seja, não pode repetir informação – se você desenha um personagem correndo nas montanhas, não precisa escrever “e ele corre sobre as montanhas”, isso era comum antigamente, Flash Gordon, Príncipe Valente, mas artistas iniciantes recaem nesse pleonasmo gráfico.

 

RM: Por que quadrinhos?

Hugo Canuto: A Canção de Mayrube começou como livro. Porém, a medida em que escrevia, a construção de paisagens, cidades e povos passava pelo desenho, pelas cores… fui entendendo que a força da imagem era necessária ali, ao menos no princípio, e antes do livro deveria explorar os Quadrinhos, como filmes no papel. As texturas, adornos, animais… foi o caminho mais pessoal para dar vida a esse universo mítico que existia em minha cabeça. Mas pretendo em breve retomar o livro, esperei amadurecer a técnica, estudei criação literária em São Paulo, na AIC, fiz cursos de roteiro… é preciso lapidar as ideias e os quadrinhos, por sua riqueza narrativa, são uma arte ideal.

 

RM: O que você tem lido ultimamente?

Hugo Canuto: Em geral, leio bastante sobre temas variados. Para produzir minha Graphic Novel, procurei livros sobre a arte de escrever, diálogos, narrativa… ando mergulhado no universo das “BDs” europeias, com artes de extrema qualidade. Tenho buscado nos mitos africanos inspiração, mitologia dos Orixás, recomendo pela originalidade das histórias.

Anúncios

Comente.

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s