Entrevista | João Miranda

Monotipia: Quais influências, no que se refere a movimentos e/ou artistas, você identifica no seu trabalho?

João Miranda: No começo eu tive uma carga massiva de mangás como referência principal do que eu fazia, até por que era o que eu mais me identificava e lia no momento. Autores como Masakatsu Katsura, Oh Great, as meninas do Clamp e a Erica Awano (que na época fazia Holy Avenger), foram a pedra fundamental para que eu quisesse fazer HQs.

Algumas coisas que me libertaram das influências iniciais das HQs, foram o expressionismo alemão – na figura em especial do George Grosz- e o surrealismo metafísico do Giorgio de Chirico e do Salvador Dalí. Essa trinca de autores (especialmente o expressionismo alemão como movimento) me deram a perspectiva do grotesco e do desagradável como forma de expressão pessoal. Tanto que os movimentos de performance na arte contemporânea e a shock art, me fascinam pela narrativa e crueza que tratam as questões da solidão e desespero do sujeito em um mundo onde algumas coisas mudam de forma tão abruptas (e outras, nem tanto). Inclusive se envolver com debates e se alinhar as demandas de movimentos sociais, me ajudou a dar forma e sentido pro meu trabalho, mesmo o mais pueril.

Agora eu busco ter a narrativa e tratamento das páginas como o Craig Thompson e a visceralidade que o Patrice Killoffer imprime nas suas páginas e temáticas, inclusive Leda não ter requadros na maioria das vezes é inspiração direta desses dois autores.

 

Monotipia: Há alguma predileção no que se refere a formatos e materiais?

João Miranda: Eu tenho focado de uns anos pra cá no digital, inicialmente por falta de espaço físico. Eu morei 5 anos em apartamento – na época da faculdade – e sendo oriundo da tinta à óleo, eu não tinha espaço físico para exercer ela, e quando adolescente eu já tinha admiração por alguns bastiões das comunidades online de desenho, então a arte digital já era meu interesse desde muito cedo.

Atualmente tenho uma queda em aprender aquarela, acho a forma de criar manchas uma arte muito elegante. Me diverte mexer nas tintas nos poucos testes que faço e tem rendido bem o conjunto que tenho.

Monotipia: Conte sobre a dinâmica de produção dos seus trabalhos.

João Miranda: Não é raro que eu comece com um rascunho no sketchbook, as vezes só pra manter produzindo e melhorar a minha velocidade de execução. Eu vou errando no caderninho até achar algo com futuro (e regularmente posto algumas besteiras que faço nas redes sociais. É um jeito de eu praticar o desapego e diminuir esse perfeccionismo que não me deixa sair do lugar, se eu deixar ele dominar).

No caso da criação de HQs eu puxo o bloco de notas do celular e escrevo coisas que já estão fermentando por dias (as vezes até meses) na minha cabeça. A partir disso, e quando eu estou seguro de que o conceito é bacana de ser aplicado, eu começo a mexer no sketchbook.

Não é incomum que depois do rascunho eu vá direto pro PC, onde vou pintar, finalizar, buscar referências e afins, pra fazer o trabalho, as vezes que fui para o PC direto, nem sempre foram as melhores. Ajuda que eu uso as redes sociais como plataforma de publicação do meu trabalho, mais do que os meios físicos, então o digital me permite ser mais maleável com o que posto.

 

Monotipia: Quais costumam ser suas preocupações gráficas, no que concerne à construção de um ritmo visual, em seus trabalhos?

João Miranda: É algo que não coloquei muito pensamento até o momento, então peço desculpas se a resposta não for muito esclarecedora. Nas ilustrações eu busco que as cores e formas imprimam um clima da cena no público. Não existe uma unidade muito clara – até o momento – para que isso aconteça, pois parte do meu processo é experimentar e mudar constantemente, por isso acho pintar um processo muito divertido, mais o processo do que o resultado final na verdade.

Nos quadrinhos, o uso do mínimo de técnicas gráficas em nome da leitura e para ajudar a previsibilidade na reprodução do material, é a tônica. Eu tive muitos problemas de produção ao tentar aplicar a mesma complexidade de uma pintura digital à uma página de HQ. Desde então eu busco reduzir tons, tipos de pincéis, texturas sem retirar a complexidade que as composições podem ter, o que me ajuda a compreender aspectos mais primordiais do meu trabalho e reforça o desapego que preciso ter com resultados e expectativas irreais que posso ter com a obra.

Gostaria de ter mais tempo para fazer isso, mas um elemento que as duas manifestações têm em comum é a vontade de ter elementos complexos e bem integrados, para que o espectador possa parar e observar por mais tempo o que eu tenho para mostrar, assim como alguns dos meus autores favoritos fazem.

Monotipia: Conte-nos sobre seus trabalhos autorais.

João Miranda: Tenho concentrado boa parte dos meus esforços na criação de LEDA, que é uma HQ (no momento) de ação, inspirada na mitologia grega. Leda é uma mortal que é imbuída de poderes por conta de Zeus, ela realiza missões para o Olimpo afim de manter as coisas exatamente como estão. Porém, seu relacionamento com Zeus é a batalha mais terrível que ela vai ter que travar ao longo da história. Atualmente estou finalizando o primeiro capítulo, ela é atualizada toda sexta feira no Tumblr, Facebook e Tapas. Meu plano é aumentar esse ritmo de produção, mas por hora não tenho recursos para fazer isso sem sacrificar minha vida financeira. Por isso criei um apoia.se, para ter a chance disto acontecer, ou de pelo menos eu bancar parte do meu desenvolvimento profissional.

Fora ela, já incursei em exposições de quadrinhos em juiz de fora, em fazer tiras debatendo assuntos delicados semanalmente (as semanais, que ainda existem na minha página), em criar hqtronica (sharpeville) e fazer uma ou outra tira de autoajuda para criativos (Quadrinhos para os sem criatividade).

Mas de todas elas, Leda tem sido empreitada mais bem-sucedida (e sou grato às pessoas que à leem)

 

Monotipia: O que você tem produzido para além deles?

João Miranda: Estou pra diagramar e fazer o projeto gráfico do livro novo da Anna Bolenna, vai ser uma publicação – financiada por catarse – comemorando os 5 anos de existência da página (a campanha deve entrar ainda esse mês). Fora isso tem um trabalho ilustrando uma coletânea de contos e HQs de terror que ainda estamos vendo se vai sair e dois projetos de hq que fui chamado pra ilustrar. Mas nada muito confirmado ainda (mesmo porque, 2017 tá no cabo da boa esperança já).

Monotipia: Por que pensar a imagem?

João Miranda: A imagem é um elemento que carrega um potencial enorme de comunicação e pessoalidade, que pode ser vista em um curto espaço de tempo. Agora a imagem é a base das relações sociais e comerciais, não há um momento do dia em que a gente não esteja traduzindo e ressignificando imagens, pro bem e pro mal. Em um momento onde fotos são usadas em massa para propagar mentiras, onde as pessoas resumem e compartilham para o mundo suas situações emocionais através de uma única imagem (seja ela uma foto, um meme, um GIF, uma ilustração e etc),  é o momento onde os artistas gráficos tem que estar mais presentes, se posicionando, apresentando argumentos, visões de vida e empurrando as fronteiras existentes das representações, para outros níveis. A imagem é sintética, sedutora e vital pra nossa era de velocidade.

 

Monotipia: O que você tem lido ultimamente?

João Miranda: Faz um tempo que tenho explorado plataformas de webcomics como a Lezing comics e o tapas, além do próprio Facebook (onde acompanho algumas séries regulares). Então diariamente eu estou lendo algo novo, pela vastidão de autores que tem na internet.

Atualmente acompanho religiosamente as nacionais: O Abismo, da Má Matiazi; Maldita Karen e Ven & Pepê, do Francis Otorlan; Nocturne, do Fred Cassar; O menino que não sabia voar; do Yuri Amaral; Kung Fu Ganja do Davi Calil e Nina e Tomas, da Julia Bax. Regulamente eu recomendo e analisar HQs nas minhas redes sociais, e no mês de setembro tenho feito o sketchtember focado em personagens femininas em HQs nacionais independentes. Então o objetivo é ter 30 boas dicas de HQs para começar. Isso pq não citei algumas gringas que já acompanhei melhor, mas vou limitar a lista nessas pra não me estender mais.

E sobre mitologia, pois Leda pede e tem é coisa pra se ler.

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